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12/03/2019 | 22:37:29

Seis testemunhas depõe no segundo dia de julgamento do Caso Bernardo


Foto: Márcio Daudt


O júri do Fórum de Três Passos retomou nesta terça-feira (12) o julgamento dos quatro acusados de assassinar o menino Bernardo Boldrini, morto há quase cinco anos. O pai, Leandro Boldrini, e a madrasta, Graciele Ugulini, foram presos pelo crime, assim como Edelvânia e Evandro Wirganovicz — eles respondem por homicídio qualificado e ocultação de cadáver.


O segundo dia de julgamento teve o depoimento de seis testemunhas. Juçara Petry, a quem Bernardo adotou afetivamente como mãe, foi a primeira a depor. Na sequência, falaram Ariane Schmitt, psicóloga do menino, Andressa Wagner, ex-secretária de Leandro, Lori Heller, ex-babá do garoto, Marlise Cecília Henz, técnica em enfermagem que trabalhou com o pai da criança, e Rosângela Andreia Pinheiro, que trabalhou no mesmo hospital que Boldrini.



Os Promotores de Justiça  exibiram vídeos que Leandro Boldrini gravou do próprio celular onde Bernardo está agitado e mostra uma faca para o pai. O menino grita, chora e pede que o pai pare de filmá-lo. As imagens foram mostradas durante o depoimento da Psicóloga Ariane Schmitt. "Esse não é o Bernardo que todos conhecemos. Jamais se quer perpetuar um comportamento agressivo", afirmou a testemunha. "Menino dócil,  sensível,  pedia abraços", definiu. "Bernardo não morreu no dia 4 de abril. Bernardo teve uma morte lenta, gradual e contínua."


Medicação


Por questão de ética profissional, a Psicóloga não revelou o teor de suas conversas com Bernardo. Ela disse que tratou Bernardo por um tempo, mas a família optou por interromper o tratamento. Quando retornou, o menino disse contou que estava tomando medicação. "Ritalina, Risperidona e Rivotril".


Ariane disse que conversou muito com pessoas que conheciam o menino. "Bernardo foi muito pouco feliz". Ela contou que o quarto do menino era azul marinho e sem vida, ao passo que o resto da casa era decorada. "Se deve dar asas para voar  mas com raízes. Criatura e criador precisam estar ligados afetivamente. Do contrário,  criará na criança uma rebeldia", disse a Psicóloga.  


À defesa de Graciele,  ela relatou que Bernardo costumava tomar os remédios sozinho, inclusive, levava para a escola.


Relacionamento com o pai


Pai tangencial, sem empatia, sem vínculo algum com o filho. Assim a Psicóloga definiu a relação de Leandro Boldrini com o filho. "Como profissional, Leandro é excelente, nota 10. Mas como pai,  deixou a desejar. A autoridade era exercida com violência,  com um certo sadismo,  como vimos nos vídeos."


Ela citou uma ocasião em que Bernardo estava com bronquite e foi sozinho ao consultório do médico,  que exigiu a presença do pai. O médico procurou Boldrini,  mas sequer foi recebido.


Menino dócil


Para  Ariane, Bernardo sofria de falta de afeto e de vínculo familiar.


À defesa de Leandro, ela disse que não conseguiu dar um fechamento clínico para o caso de Bernardo, o atendeu "meia dúzia" de vezes. A madrasta esteve junto "no máximo duas vezes".


A defesa de Graciele perguntou à testemunha se Bernardo odiava alguém. "Sim, a madrasta. Havia animosidade." 


Ordem para expulsar


Andressa Wagner, ex-secretária da clínica de Leandro Boldrini foi a última testemunha arrolada pelo Ministério Público. Os dois trabalharam juntos por cinco anos. O depoimento dela girou em torno da autenticidade da assinatura do médico. Ela não permitiu registro de imagens dela e chorou em plenário quando questionada sobre o motivo da restrição.


Andressa contou que a madrasta deu ordem para que a funcionária expulsasse Bernardo do consultório,  caso ele aparecesse por lá.  Houve uma vez em que ela estava muito irritada e comentou que teria que "dar fim" no menino e que "dinheiro ela tinha para dar fim no guri". Ela não sabe se Leandro Boldrini tinha conhecimento dessa ordem.


A ex-funcionária disse ainda que nem sempre o relacionamento dos dois foi assim. Que, no início, Graciele e Bernardo se davam bem e passeavam juntos. Bernardo contou para Andressa que ia ganhar um aquário. "Ele falou para o pai que ia comprar o aquário,  tiraram uma foto juntos e o Doutor mostrou a clínica para ele¿. Andressa contou ao MP que chegou a ajudar Bernardo em trabalhos de aula e que também o acompanhou em  consulta médica e ao dentista. "Não tinha ninguém para levar."


Edelvânia esteve na clínica,  ocasião em que contou para a testemunha que seria madrinha de Maria Valentina,  a filha de Graciele e Leandro.  As duas conversaram por cerca de meia hora. O médico estava no hospital operando um paciente. Antes disso, ela nunca tinha falado com a acusada.


Assinatura


De acordo com Andressa, o médico era um excelente profissional. O Promotor de Justiça perguntou a ela sobre a assinatura do ex-chefe dela. Ele mostrou cópias de receitas com assinaturas que seriam de Boldrini. A testemunha, em princípio,  disse que a assinatura do médico não variava. Entretanto,  ela não reconheceu todas as formas apresentadas nos documentos apontados pelo MP e ficou confusa em relação a elas.


Medicina


A vida de Leandro Boldrini era voltada para o trabalho,  sendo a profissão  "sua paixão". A ex-funcionária disse que foi fiel ao médico e que  nutre por ele um misto de sentimentos,  oscilando entre raiva e gratidão.  Nunca viu Leandro nervoso ou brigando com Bernardo.


Morte de Odilaine


Um laudo de um perito particular, contratado pela mãe de Odilaine, já depois da morte do neto, apontou que Andressa teria escrito uma carta se passando pela mãe de Bernardo, supostamente deixada por ela antes de se suicidar. O fato causou revolta popular e fez com que Andressa fosse embora de Três Passos. "Acabaram com a minha vida", disse ela, chorando. O processo que investigou as circunstâncias da morte de Odilaine chegou a ser retomado,  mas foi rearquivado.


A testemunha disse que se sentiu pressionada durante a investigação policial. "A delegada Caroline chegou dizendo para eu falar onde estava Bernardo." De acordo  com a testemunha, sempre que Bernardo foi à clínica estava com as chaves de casa e um controle preto na mão. Estava sempre bem vestido. Sempre foi magro, mas ela considera que o menino sempre foi assim. 



Lori Heller trabalhou na casa de Leandro Boldrini quando ele era casado com Odilaine Uglione. Ela foi a primeira testemunha arrolada pela defesa do médico a ser ouvida no Tribunal do júri.


Seu depoimento foi rápido.  Disse que Leandro era um bom pai e que não conhecia Graciele. Bernardo chegou a visitá-la.  Devido às condições de saúde da testemunha, assim defesas abriram mão da incomunicabilidade dela, que foi dispensada.


A técnica em Enfermagem Cecília Henz falou em seguida. Ela trabalhou com Leandro na clínica.  Disse que a relação de pai e filho era "tranquila". Graciele trabalhava na a higienização de materiais, mas tinha acesso aos medicamentos.


A testemunha disse que deu falta de medicamentos e contou para a companheira de Boldrini. "Ela disse que teriam que por um cadeado no local."


Pai manso


Cecília conhecia Bernardo desde pequeno. Na avaliação dela, Leandro era um "pai manso". "Nunca vi desamor em relação a Bernardo." Ela disse que não sabia dos conflitos dentro da casa dos Boldrini e que só soube pelas pessoas da cidade,  depois que Bernardo morreu. "Pessoal da cidade, depois do acontecido,  sabia tudo."


Quando Leandro recebeu a intimação para a audiência no Juizado da Infância e Juventude,  Graciele ficou muito irritada. "Talvez tenha se sentido confrontada por Bernardo." Já o médico demonstrou tristeza. "Ele estava imensamente triste."


Matador de aluguel


Graciele era uma pessoa vaidosa, sempre bem vestida. A testemunha não conheceu o núcleo familiar dos acusados. Disse que no início do relacionamento,  Graciele era mais próxima de Bernardo. "Após o nascimento de Maria Valentina eu nunca mais vi ela com Bernardo."


Cecília e Andressa Wagner foram colegas no consultório de Boldrini.  A ex-secretária contou para ela sobre as declarações da madrasta quanto a mandar matar Bernardo depois dele ter pedido ajuda à Justiça. "Andressa disse que Graciele bateu forte na mesa e que teria dinheiro para contratar um matador de aluguel." A testemunha declarou que chegou a cogitar ir até a Polícia,  mas a colega afirmou não acreditar que a madrasta Faria Isso. "Nunca imaginamos que a mãe da Maria iria matar o irmão da Maria. Até hoje é difícil acreditar."


Ela disse que Graciele chegou a reclamar de Bernardo, e que quis mostrar o vídeo em que o menino aparece ameaçando o pai com um facão. "Eu não quis ver."


Testemunha assistiu vídeo pela primeira vez


"Fico muito emocionada de falar sobre isso", disse Cecília. "Porque,  assim como ele (Leandro) não teve capacidade de ver, eu também não tive. Não acredito que ele tenha participado do crime. Ele confiou nela. Ela era enfermeira e jurou cuidar da vida dos outros", explicou.


O Promotor de Justiça mostrou à testemunha um vídeo em que Bernardo grita por socorro e discute com a madrasta e o pai. Ela ameaça o menino. "Tu não sabe do que eu sou capaz, Bernardo.  Eu prefiro apodrecer na cadeia do que continuar vivendo contigo nesta casa." Na briga, o casal ofende Odilaine. "Eu tenho pena de ti, Bernardo, tua mãe te abandonou", disse Boldrini. "Era uma vagabunda", frisou a madrasta. Quando a polícia chega, o menino é intimado pelos dois a atender a porta e é chamado de palavras de baixo calão. O menino chora, e diz que foi agredido. Em seguida, a criança diz que vai se matar. E a madrasta retruca: "Dá uma faca, Leandro."


Rosangela Pinheiro trabalhava no hospital de Três Passos e seu depoimento foi bem rápido. Seu relacionamento com Leandro Boldrini era estritamente profissional. Viu poucas vezes Bernardo no hospital em 2014, respondendo a pergunta do MP.


O julgamento será retomado amanhã às 9h. Restam seis testemunhas de defesa para serem ouvidas. De acordo com o Tribunal de Justiça, o julgamento deve durar cinco dias. 



 


Fonte: Site do Tribunal de Justiça do RS
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