O solo é, muitas vezes, invisível aos olhos apressados do dia a dia. Pisado, cultivado, transformado — quase nunca lembrado. Mas é nele que começa silenciosamente a vida, a produção de alimentos, a segurança hídrica, a biodiversidade e o futuro das próximas gerações.
O Dia Nacional da Conservação do Solo, celebrado hoje, 15 de abril, convida à pausa e à reflexão. A data foi escolhida em homenagem a Hugh Hammond Bennett (15/04/1881 – 07/07/1960), considerado o pai da conservação dos solos nos Estados Unidos e primeiro responsável pelo Serviço de Conservação de Solos daquele país. Bennett foi um dos pioneiros a demonstrar que o solo não é apenas substrato, mas um patrimônio vivo, finito e estratégico para as nações.
No Brasil, essa consciência foi institucionalizada pelo Decreto-Lei nº 7.876, de 13 de novembro de 1989, como uma iniciativa do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), reconhecendo que conservar o solo é condição essencial para produzir, proteger o ambiente e sustentar a economia agropecuária no longo prazo.
Em um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, de estiagens prolongadas e chuvas intensas, a conservação do solo deixa de ser uma escolha técnica: torna-se uma estratégia de resiliência, adaptação e sobrevivência. Cada centímetro de solo perdido por erosão leva séculos para ser recomposto. Cada área bem manejada, por outro lado, é um legado.
É nesse contexto que a política pública ganha centralidade. O Plano ABC+ RS – Plano Estadual de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (2020–2030) representa um compromisso concreto do setor agropecuário do Rio Grande do Sul com a conservação do solo, da água e do clima. O plano incentiva a adoção de 10 Sistemas, Práticas, Produtos e Processos de Produção Sustentáveis (SPSABC), cientificamente validados, que promovem aumento da produtividade com conservação dos recursos naturais:
Sistema Plantio Direto (grãos e hortaliças)
Sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta e Sistemas Agroflorestais
Práticas de Recuperação de Pastagens Degradadas
Florestas Plantadas
Bioinsumos
Sistemas Irrigados
Manejo de Resíduos da Produção Animal
Terminação Intensiva
Os resultados já alcançados no estado demonstram que conservar o solo é possível, viável e escalável. Entre 2020 e 2025, o Rio Grande do Sul atingiu 1,52 milhão de hectares com adoção de tecnologias do Plano ABC+, chegando à metade do ciclo do plano antes de 2030.
Destacam-se:
691 mil hectares em Sistema Plantio Direto, superando a meta prevista para o período;
454 mil hectares em Sistemas de Integração LavouraâÂÂPecuáriaâÂÂFloresta (ILPF);
260 mil hectares com recuperação de pastagens degradadas, áreas onde o solo volta a cumprir seu papel produtivo e ambiental.
Esses números representam mais do que estatísticas. Representam produtores que decidiram cuidar da terra, técnicos que orientaram, pesquisadores que geraram conhecimento e uma política pública que conecta ciência, campo e sociedade.
Neste 15 de abril, celebrar o solo é reafirmar um princípio simples e profundo: não existe produção sem conservação. Cuidar do solo hoje é garantir alimento, renda, água e equilíbrio climático amanhã. Que esta data nos lembre: o solo não pertence apenas à geração atual — ele precisa ser cuidado hoje para garantir o futuro das próximas. E que o Rio Grande do Sul segue mostrando que é possível produzir com responsabilidade, ciência e compromisso com o futuro.
Por Jackson Freitas Brilhante - engenheiro florestal, doutor em Ciência do Solo, pesquisador da Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi/RS) e coordenador do Plano ABC+ RS,