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Fenasoja Soy Summit posiciona soja brasileira na transição energética global

Fenasoja Soy Summit posiciona soja brasileira na transição energética global
  • 30/04/2026 - 21:32
  • Atualizado 30/04/2026 - 21:33

O Centro Cívico Cultural de Santa Rosa recebeu nesta quinta-feira (30/04), a primeira edição do Fenasoja Soy Summit — Carbono Zero: um dia inteiro de debates entre produtores, cientistas, advogados, executivos e representantes do setor energético sobre os rumos da soja brasileira diante das exigências globais de descarbonização. Das 8h às 17h, quatro blocos temáticos — oportunidades da soja, ambiente de negócios, mercado e economia, e clima e gestão — organizaram uma agenda que reflete a complexidade de uma cadeia que movimenta mais de US$ 60 bilhões por ano em exportações e sustenta parcela decisiva do equilíbrio da balança comercial brasileira.

Santa Rosa é o berço da soja no Brasil — há cem anos, em 2024, recebeu as primeiras sementes cultivadas em escala comercial no país e exportou esse conhecimento para diferentes pontos do país e para o mundo. Hoje, o mesmo município que originou o grão se coloca como espaço onde a cadeia produtiva debate o que vem a seguir.

Abertura: da história ao debate contemporâneo

A abertura foi conduzida por Douglas Marques e reuniu no palco Marcos Eduardo Servat, presidente da Feira Nacional da Soja (Fenasoja) 2026, Jerônimo Georgen, embaixador do Soy Summit, Sidnei Strejevitch, do Sicredi União Rio Grande do Sul e Espírito Santo (RS/ES), e o prefeito de Santa Rosa, Anderson Mantei.

O tom foi direto. "Quando a gente quer que algo mude, a gente precisa ocupar esses espaços", disse Servat. Georgen explicou a lógica do evento: "A Fenasoja tem um papel de mobilização, de vendas, de confraternização — mas faltava um momento para adequar a história de Santa Rosa a um debate do agro contemporâneo." E lançou o desafio que atravessou o dia: "Se tudo aquilo que for dito aqui hoje marcar e você levar isso para a sua realidade, isso sim é aprendizado."

Bloco 1 — Oportunidades da soja: ciência, biotecnologia e energia

Conduzido por Júlio Bravo, o primeiro bloco reuniu Tiago Maique, da Bayer, e Júnior Rosa de Almeida, do Grupo Camera.

Maique abriu com a palestra "A soja do amanhã: ciência, biotecnologia e sustentabilidade", apresentando um dado que reposiciona o debate sobre expansão agrícola no Brasil: o país ocupa apenas 8% do seu território com lavouras — número que evidencia o quanto ainda é possível crescer sem pressão sobre biomas. "A tecnologia que o Brasil já tem no campo é subestimada. O desafio agora é medir e comunicar isso de forma que o mercado internacional compreenda e valorize", disse. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Brasil possui mais de 32 milhões de hectares cultivados em plantio direto — a maior extensão do mundo nesse sistema —, com impacto direto na redução de erosão e emissão de dióxido de carbono (COâ‚‚).
Almeida apresentou a trajetória de um dos grupos que é referência em agregação de valor à soja. Sob o tema "Camera: transformando propósito e legado em valor para a sociedade", destacou a geração de energia a partir de biomassa — palha de milho, pellets e podas de árvores — como alternativa concreta para reduzir custos e emissões dentro da própria cadeia. "Essa combinação entre as empresas nos permite ganhar eficiência, escala e competitividade, além de manter o foco nas nossas principais atividades", afirmou. O painel que encerrou o bloco abriu espaço para debate com o público sobre insumos biológicos e rastreabilidade exigida pelos mercados internacionais.

Bloco 2 — Ambiente de negócios: crédito rural, segurança jurídica e mercado de carbono

Conduzido por Jerônimo Georgen, o segundo bloco reuniu Daniel Carnio Costa e Renato Buranello — dois dos nomes mais influentes do direito aplicado ao agronegócio no Brasil. O tema raramente entra na pauta das feiras do setor, mas determina, na prática, a viabilidade financeira de cada safra: a segurança jurídica do crédito rural.

"Decisões judiciais que desconsideram o ciclo produtivo afetam o financiamento das próximas safras. O impacto não é sobre uma empresa — é sobre uma cadeia inteira", disse Buranello, ao tratar das disputas envolvendo recursos vinculados ao Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR).

O debate também abordou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), sancionado no fim de 2024, que abre uma nova frente de receita para produtores que adotem práticas de baixo carbono. "O produtor que planta florestas, recupera pastagens degradadas ou adota o plantio direto já tem ativos de carbono. O que falta, na maioria dos casos, é saber como transformar isso em crédito e em receita", afirmou Buranello.

Carnio Costa encerrou com uma reflexão que resumiu o bloco: "O papel da lei deve se assemelhar à sinalização de trânsito — organizar a sociedade sem sufocar a autonomia privada."

Bloco 3 — Mercado e economia: soja como plataforma energética global

À tarde, Bravo conduziu o bloco com Erasmo Battistella, da B&8, e Tiago Carpenedo, Presidente do Instituto de Estudos Empresariais do Rio Grande do Sul (IEE).

Battistella abriu com a palestra "Soja: Alimento e Energia", mostrando como o biodiesel, o Combustível Sustentável de Aviação (SAF, na sigla em inglês para Sustainable Aviation Fuel) e o biogás derivados da soja colocam o Brasil em posição de protagonismo na transição energética global. Os números são expressivos: o biodiesel de soja já responde por cerca de 75% da matriz de biodiesel brasileira, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), e o país encerrou 2025 com mandato de mistura em 15%, com perspectiva de chegar a 20% até 2030 pelo RenovaBio. No mercado de aviação, a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA, na sigla em inglês para International Air Transport Association) estima que o setor precisará de 450 bilhões de litros de SAF por ano até 2050 — e a soja brasileira está entre as matérias-primas com maior potencial para abastecer essa demanda.

Battistella respondeu ainda a uma crítica recorrente: o uso da soja para biocombustíveis não compromete a produção de alimentos, já que apenas cerca de 20% do grão é destinado à energia, enquanto a maior parte segue para proteína animal. "O Brasil tem solo, tecnologia, escala e conhecimento para ser o maior fornecedor de energia limpa do mundo. A soja é o centro dessa equação — não apenas como alimento, mas como plataforma energética", disse.
Carpenedo conduziu a palestra "O Brasil tem jeito?", inspirada no debate do Fórum da Liberdade promovido pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE). O ponto de partida foram os índices internacionais de liberdade econômica, que revelam entraves estruturais — alta complexidade regulatória, insegurança jurídica e custo elevado para empreender. A provocação veio em forma de comparação: Chile, Uruguai e Paraguai vêm se tornando destinos cada vez mais atrativos para investimentos, evidenciando oportunidades que o Brasil, com potencial maior, tem deixado passar.

No painel que encerrou o bloco, Battistella trouxe a perspectiva de quem investe no Brasil há décadas: "O Brasil precisa melhorar sua narrativa internacional e valorizar mais suas oportunidades, especialmente em setores estratégicos como os biocombustíveis." A síntese foi direta: o país não carece de potencial, mas de execução, confiança institucional e alinhamento entre sociedade, setor produtivo e poder público.

Bloco 4 — Clima e gestão: o custo do clima já está dentro da lavoura

O encerramento do dia tocou no ponto mais urgente da agenda do produtor gaúcho. Depois de duas safras consecutivas marcadas por eventos extremos — seca em 2023 e inundações em 2024 —, a pergunta deixou de ser se o clima vai afetar a produção e passou a ser como o produtor se prepara para isso.
Paulo Hermann abriu o bloco com "Os Desafios Climáticos do Rio Grande do Sul" e dispensou o tom de lamento. A mensagem foi direta: o campo gaúcho precisa parar de reclamar e começar a resolver. "Nós não podemos esperar a mudança acontecer, precisamos ser a mudança. Não podemos ser chorões e só reclamar, precisamos fazer a solução acontecer", disse Hermann, antes de lançar perguntas que expõem gargalos concretos da produção regional: o Estado tem estrutura de drenagem para enfrentar um ano de El Niño — que promete chuva acima da média em 2026? Os solos estão sendo manejados como reserva hídrica? Há milho suficiente para expandir a suinocultura gaúcha, que poderia crescer muito mais? "O solo é reserva de água, mas é preciso cuidar do solo", afirmou. Para Hermann, as perguntas sem resposta não são retórica — são o mapa do que precisa ser feito. 

Em seguida, Luís Carlos Molion apresentou "Clima: Perspectivas para 2026 e Tendências para 10 Anos" — e entregou uma das análises mais densas e provocadoras do dia. Molion não usa modelos computacionais: trabalha com similaridade histórica, cruzando o cenário oceânico atual com anos anteriores de comportamento parecido. Para 2026, o ano de referência é 2007. O acumulado projetado para a região de Santa Rosa no restante do ano é de aproximadamente 1.500 mm — distribuição irregular, com junho, agosto e dezembro abaixo da média e abril e setembro acima.

Para o inverno, Molion projeta duas a três massas de ar polar: uma moderada no final de maio, uma mais severa nos primeiros dez dias de julho — com temperaturas abaixo de zero — e uma moderada na segunda quinzena de julho. "Não vejo grandes problemas para a lavoura de trigo, mas quem tem gado de corte no pasto precisa estar atento ao risco de hipotermia", alertou.

O ponto mais aguardado foi a leitura sobre o El Niño. Molion foi contundente: a água quente observada no Pacífico não é resultado de um El Niño clássico — é consequência direta de dois terremotos. O primeiro, de 8,8 graus na Escala Richter, ocorreu em 30 de julho de 2025 na Península de Kamchatka, na Rússia, e espalhou água quente acumulada próxima ao Japão por mais de 56 milhões de quilômetros quadrados do Pacífico em questão de dias. O segundo, de 7,4 graus, aconteceu em 20 de abril de 2026 no nordeste do Japão, reforçando esse deslocamento. "Essa água quente não é de um El Niño clássico. A atmosfera precisa de cinco a seis meses para se acoplar ao oceano. Se essa água durar apenas dois ou três meses, não haverá acoplamento — e o impacto nas nossas chuvas pode ser mínimo ou nulo", explicou.

Para a próxima década, Molion projetou resfriamento global progressivo até 2034-2035, com base em um ciclo de 60 anos — 30 anos de aquecimento, 30 de resfriamento — já documentado em dados históricos. As implicações práticas para o produtor gaúcho: estação seca mais longa, chuvas mais concentradas e irregulares, com o fenômeno de chover em uma parte da propriedade e não na outra tornando-se mais frequente. A resposta, segundo Molion, passa necessariamente pelo manejo do solo. "O solo é a caixa d'água. Você tem que armazenar água no solo", repetiu, defendendo que as raízes da soja precisam atingir entre 80 cm e 1,2 m de profundidade para garantir acesso à umidade nos períodos secos — e que isso só é possível com subsolagem adequada e rotação de culturas.

Molion encerrou sua fala citando Francis Bacon: "Nós não podemos comandar a natureza. Nós temos que nos adaptar a ela."

O painel final reuniu Hermann, Molion e Luciano Schwerz, doutor e extensionista da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), com Júlio Bravo na condução. Schwerz dimensionou a escala do problema: o complexo da soja responde por cerca de 40% das exportações do Rio Grande do Sul, dentro de um contexto em que a agropecuária representa aproximadamente 72% das exportações totais do Estado. As perdas acumuladas no setor agropecuário gaúcho desde 2020 ultrapassam R$ 80 bilhões — resultado da alternância entre estiagens severas e excesso de chuvas que desestruturou o planejamento de produtores em todo o Estado.

O painel revelou ainda uma transformação silenciosa no campo gaúcho: houve redução de cerca de 20% no número de pequenas propriedades com menos de 50 hectares, enquanto a agricultura familiar ainda representa cerca de 80% dos estabelecimentos rurais, concentra 72% da mão de obra e quase 40% do valor gerado — dados que mostram a tensão entre concentração e diversidade no campo.

Schwerz apresentou a resposta do Governo do Estado ao cenário: o programa Operação Terra Forte, que já atende cerca de 15 mil propriedades em 495 municípios, com diagnóstico detalhado das áreas e planos de ação personalizados para aumentar a resiliência produtiva. Segundo o extensionista é possível aumentar a produtividade entre 10% e 30% com melhorias de manejo — correção do solo, rotação de culturas e práticas conservacionistas. "Não existe solução imediata. É preciso investir em conhecimento, planejamento e atitude para construir sistemas produtivos mais seguros e sustentáveis", concluiu.

Encerramento: um dia de universidade — e uma segunda edição confirmada

O encerramento foi conduzido por Jerônimo Georgen, que não conteve a avaliação do dia: "Foi um dia de universidade. Talvez devêssemos mudar o nome para Soy Summit Academy." A plateia, que permaneceu presente das 8h às 17h sem redução expressiva, foi o termômetro do que o evento representa. "Santa Rosa chegou num momento com tanta fé na soja que daqui pra frente começa a discutir exatamente isso — como se preparar para defender nossa produção de outra forma", disse Georgen, ao agradecer Hermann, Molion e Schwerz pela densidade do conteúdo entregue.

Georgen deixou o desafio explícito: "O ano que vem, passamos ainda maior. O Soy Summit já foi um sucesso na sua primeira edição." Na mesma data, Santa Rosa entregou o Troféu Berço Nacional da Soja a personalidades ligadas à expansão da cultura no país — um gesto simbólico que marca os cem anos da cidade como origem do grão que transformou o Brasil.

Fenasoja 2026

A Fenasoja) inicia nesta sexta-feira (1º de maio) e vai até 10 de maio no Parque de Exposições Alfredo Leandro Carlson, com entrada gratuita para pedestres viabilizada por parceria com o Sicredi União Rio Grande do Sul e Espírito Santo (RS/ES). São mais de 600 expositores, eventos técnicos, palestras, shows e programação cultural ao longo de 10 dias, com expectativa de receber mais de 350 mil visitantes.

As informações são da Assessoria de Imprensa da Fenasoja 2026